Lírio Verde

Criar seu atalho
http://criadoreumso.blogspot.com
01/05/2011 (Quarta-feira)
Criar seu atalho
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01/05/2011 (Quarta-feira)
Capítulo III
Nesse mesmo ano tive de interromper meus estudos, quando voltei de Madaura*, cidade vizinha, onde fora estudar literatura e oratória, enquanto se faziam os preparativos necessários para minha viagem mais longa a Cartago, levado mais pela ambição de meu pai que pelos seus parcos bens, pois, era mui modesto cidadão de Tagaste**.
Mas, a quem conto eu esses fatos? Certamente, não a ti, meu Deus, mas em tua presença conto estas coisas aos de minha estirpe, ao gênero humano, ainda que estas páginas chegassem às mãos de poucos. E para que então? Para que eu, e quem me ler, pensemos na profundeza do abismo de onde temos de clamar por ti? E que há de mais próximo a teus ouvidos que o coração contrito e a vida que procede da fé?
Quem então não cumulava a meu pai de louvores, pois excedendo até seus deveres familiares, gastava com o filho o necessário para tão longa viagem por causa de seus estudos? Porque muitos cidadãos, muitos mais ricos do que ele, não mostravam para com os filhos igual cuidado.
Contudo, este mesmo pai não se importava de saber se eu crescia para ti, ou que fosse casto, contanto que fosse diserto; mas antes eu era deserto, por carecer de teu cultivo, ó Deus, único, verdadeiro e bom senhor de teu campo, o meu coração.
Porém, no meu décimo-sexto ano foi necessária uma interrupção em meus estudos por falta de recursos familiares e, livre da escola passei a viver com meus pais. Avassalaram então minha cabeça os espinhos de minhas paixões, sem que houvesse mãos que os arrancassem. Pelo contrário, meu pai, certo dia, percebendo ao banho os sinais da minha puberdade e vendo-me revestido de inquieta adolescência, como se já alegrasse pensando nos netos, foi contá-lo alegre à minha mãe. Alegria essa gerada pela embriaguez com que este mundo esquece de ti, seu criador, e em teu lugar ama tua criatura; embriaguez que nasce do vinho sutil de sua perversa e mal inclinada vontade para as coisas baixas.
(Por Aurélius Augustinus. *354 -430) pág. 53-54.
*Madaura, hoje Nidaourouck
**Tagaste, hoje Souk-Ahrás (Nigéria)
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