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GALÁXIA, ALFA, Brazil
Simples como a brisa, complexo como nós. Nascido em 25/5/1925.

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domingo, 31 de julho de 2011

A CONVERSÃO ( I ) LIVRO OITAVO DAS CONFISSÕES

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31/07/2011 (Domingo)


CAPÍTULO XII

Mas logo que esta profunda reflexão tirou da profundeza de minha alma, e expôs toda minha miséria à vista de meu coração, caiu sobre mim enorme tormenta, trazendo copiosa torrente de lágrimas. E para dar-lhe toda vazão com seus gemidos, afastei-me de Alípio; a solidão parecia-me mais adequada e me afastei o mais longe possível, para que sua presença não me fosse embaraçosa. Tal era o estado em que me encontrava, e Alípio percebeu-o, pois lhe disse alguma coisa com um timbre de voz embargado de lágrimas que me denunciou.

Alípio. atônito, continuou no lugar em que estávamos sentados; mas eu, não sei como, me retirei para a sombra de uma figueira, e dei vazão às lágrimas; e dois rios brotaram de meus olhos, sacrifício agradável a teu coração. E embora não com estes termos, mas com o mesmo sentido, muitas coisas te disse como esta: E tu, Senhor, até quando¹? Até quando, Senhor, hás de estar irritado! Esquece-te de minhas iniquidades passadas²! Sentia-me ainda preso a elas, e gemia, e lamentava: "Até quando? Até quando direi amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não por fim agora às minhas torpezas?"
(Por Aurelius Augustinus   *354   +430) Pág.184-185.
¹ Sl 6,4.
² Sl 78,5.

sábado, 30 de julho de 2011

ÚLTIMAS RESISTÊNCIAS ( II ) LIVRO OITAVO DAS CONFISSÕES

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30/07/2011 (Sábado)


CAPÍTULO XI

Contudo, faziam com que eu, vacilante, tardasse em me separar delas para correr para onde me chamavam, enquanto o hábito violento me dizia: "Julgas que poderás viver sem elas?""

Mas isto já dizia com voz muito débil. Para onde voltava o rosto, e por onde temia passar, mostrava-se para mim a casta dignidade da continência, serena e alegre, sem desordens, acariciando-me honestamente para que me aproximasse sem medo. Estendia para mim, para me acolher e abraçar, suas mãos piedosas, cheias de uma multidão de bons exemplos.

Junto dela, uma turba de meninos e meninas, uma juventude numerosa, e homens de toda idade, viúvas veneráveis e virgens idosas. Em todas essas almas, não era estéril, mas fecunda mãe de filhos nascidos nas alegrias do esposo, que eras tu, Senhor!

E a continência zombava de mim com ironia animadora, como se dissesse: "Então, não serás capaz de fazer o mesmo que eles? Ou será que estes e estas encontraram forças em si mesmos, e não no Senhor, seu Deus? Foi o Senhor Deus, quem me entregou a eles. 

Por que te apóias em ti, se és vacilante? Lança-te nele, não temas, que ele não se apartará de ti, e tu não cairás. Lança-te com confiança, que ele te receberá e te curará.""

E enchia-me de vergonha por ainda ouvir o murmúrio daquelas bagatelas e, vacilante, continuava indeciso.

Mas de novo a voz da castidade parecia me dizer: Não dês ouvidos às tentações imundas da tua carne impura que te prende à terra¹. a fim de que seja modificada. Ela te fala de deleites, contrários porém, à lei do Senhor teu Deus².

Essa luta se desenrolava no fundo do meu espírito, de mim contra mim mesmo. Alípio, sem sair de perto de mim, aguardava em silêncio o desfecho de minha insólita agitação.
(Por Aurelius Augustinus   *354    +430) Pág.183-184.
¹ Col 5,3.
² SL 118,85

sexta-feira, 29 de julho de 2011

ÚLTIMAS RESISTÊNCIAS ( I ) LIVRO OITAVO DAS CONFISSÕES

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29/07/2011 (Sexta-feira)


CAPÍTULO XI

Assim sofria e me atormentava, com acusações mais acerbas que de costume, rolando-me e debatendo-me dentro de minhas cadeias, para ver se as quebrava por completo. Elas mal me prendiam, mas ainda me prendiam. E tu Senhor, me espicaçavas no fundo de minha alma, e com severa misericórdia redobravas os açoites do temor e da vergonha, para que eu não afrouxasse de novo, e para que quebrasse minha tênue e leve cadeia, antes que ela se revigorasse para me prender mais firmemente.

E dizia comigo mesmo: "Vamos! Mãos à obra, sem demoras!" E quase passava da palavra à ação. Estava a ponto de agir, mas não agia. Eu já não recaía nas antigas paixões, mas delas estava bem próximo, e tomava ainda alento de seu ar. Quase a alcançava, faltava pouco, cada vez menos, e já quase chegava ao termo e a segurava; mas não alcançava, nem a tocava; hesitava entre morrer para a morte e viver para a vida. O mal arraigado dominava-me mais do que o bem, cujo hábito eu não possuía; na medida em que se ia aproximando o momento em que me transformaria em outro homem, maior era o horror que me incutia, sem contudo me fazer voltar para trás ou mudar de caminho. Simplesmente mantinha-me indeciso.

Mantinha-me preso umas tantas bagatelas, umas vaidades de vaidades, antigas amigas minhas, que me puxavam por minhas vestes carnais, murmurando: "Então, não nos abandonas? De agora em diante nunca mais estaremos contigo? Desde este momento nunca mais te será lícito isto e aquilo?"

E que coisas, meu Deus, que torpezas me sugeriam com o que chamei de isto e aquilo! Por tua misericórdia, afasta-as da alma de teu servo! Oh! Que imundícies me sugeriam, que indecências! Já se reduzira a menos da metade o número de vezes que eu lhes dava ouvidos; não era mais um assalto aberto, frontal, mas segredado por cima dos ombros, e como que puxando-me furtivamente, se me afastava, para que me voltasse para trás.
(Por Aurelius Augustinus  *354   +430) Pág. 183 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

LUTA ESPIRITUAL ( II ) - LIVRO OITAVO DAS CONFISSÕES

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28/07/2011 (Quinta-feira)


CAPÍTULO VIII

Enfim, naquela angustiante hesitação, fazia mil gestos, como soem fazer os homens que querem e não podem, ou porque não têm membros, ou porque os têm atados em cadeias, debilitados pelas fraqueza ou paralisados de qualquer outro modo. Se puxei os cabelos, se feri a fronte, se apertei os joelhos entre os dedos entrelaçados, eu os fiz porque quis. Poderia porém querer fazê-lo e não o fazer, se a flexibilidade de meus membros não obedecesse. Portanto, fiz muitas coisas, nas quais o querer não era o mesmo que o poder.

Contudo, eu não fazia aquilo que desejava acima de tudo o mais, e que eu poderia fazer desde que o quisesse, porque se o tivesse efetivamente querido, bastava que o quisesse sinceramente; nisto o poder é o mesmo que o querer, e querer já seria agir.

Contudo não o fazia, e o meu corpo obedecia mais facilmente ao mais leve comando de minha alma, movendo os membros segundo sua vontade, do que a própria alma obedecer a si mesma para realizar seu grande desejo apenas com a vontade.
(Por Aurelius Augustinus  *354   +430) Pág. 179

quarta-feira, 27 de julho de 2011

LUTA ESPIRITUAL ( I ) LIVRO OITAVO DE CONFISSÕES

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27/07/2011 (Quarta-feira)


CAPÍTULO VII

Então, em meio àquela luta interior que eu travava violenta contra mim mesmo no recesso do meu coração, perturbado no rosto e no espírito, volto-me para Alípio exclamando: "Que tanto nos aflige?" O que significa isto que ouviste? Levantam-se os ignorantes e arrebatam o céu, e nós, com todo nosso saber insensato, nos revolvemos na carne e no sangue! Acaso temos vergonha de seguí-los porque se nos adiantaram, e não temos vergonha de os não seguir?"

Foi mais ou menos o que eu lhe disse, e dele me afastei sob forte emoção; Alípio me olhava atônito e em silêncio. Eu não falava como de costume, e muito mais que as palavras, minha fronte, minhas faces, meus olhos, minha cor e o tom de minha voz denunciavam meu estado de espírito.

Nossa casa tinha um pequeno jardim, que usávamos, assim como o restante da casa, que nosso hóspede não habitava. Para ali me levara a tormenta de meu coração, onde ninguém pudesse interferir no ardente combate que eu travava comigo mesmo , até que se resolvesse o assunto conforme tu sabias e eu ignorava. Mas eu delirava para reencontrar a razão, e morria para reviver; conhecia meu mal, mas desconhecia o bem que depois haveria de sobrevir.

Retirei-me, pois, para o jardim, e Alípio seguiu-me passo a passo; mas apesar de sua presença, eu não estava menos só. E como haveria ele de me deixar naquele estado? Sentamo-nos o mais longe possível da casa. Eu tremia pela violenta indignação, me enraivecia por não poder seguir teu agrado e aliança, ó meu Deus, aliança pela qual clamava todos os meus ossos, que te elevavam louvores até o céu. E para ir a ti não há necessidade de navios nem de carros, nem mesmo dar daqueles poucos passos que separavam a casa do jardim onde estávamos. Não somente ir, mas chegar junto de ti, nada mais é do que querer ir, mas com querer enérgico e pleno, e não com vontade tíbia, que se dispersa em todos os sentidos, e se agita incerta, dividida, ora levantando-se, ora voltando a cair.
(Por Aurelius Augustinus  *354   +430) Pág. 178-179

terça-feira, 26 de julho de 2011

A REAÇÃO DE AGOSTINHO ( II ) LIVRO OITAVO DAS CONFISSÕES

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26/07/2011 (Terça-feira)


CAPÍTULO VII

Mas eu, jovem miserável, sim, miserável desde o despertar da juventude, já te havia pedido a castidade, dizendo: "Dá-me a castidade e continência, mas não agora" -  pois temia que me atendesse muito depressa, e que me curasse logo da doença de minha concupiscência, que eu mais queria saciar do que extinguir. E caminhei pelas sendas ruins de uma superstição sacrílega, não porque estivesse certo dela, mas porque a preferia às demais doutrinas, que eu não estudava piedosamente, mas que hostilmente combatia.

Acreditava que o motivo por que adiava dia a dia o desprezo das promessas seculares, para seguir apenas a ti, era o não ter descoberto uma claridade capaz de dirigir meus passos. Veio, então, o dia em que me vi nu, a ouvir as repreensões de minha consciência: "Onde está a tua palavra? Não dizias que tua indecisão para lançar longe o fardo de tua vaidade se devia a incerteza? Agora tens a certeza, e não obstante, ainda te oprime esse fardo; outros, no entanto, que não se consumiram tanto em procurá-la, nem meditaram dez anos ou mais sobre tais problemas, veem nascer asas em seus ombros mais livres".

Assim me roía interiormente, devorado por enorme e terrível vergonha, enquanto Ponticiano contava aquilo tudo. Finda a conversa, e resolvida a questão a que viera, Ponticiano voltou para sua casa, e eu para dentro de mim. Que coisas não disse contra mim? Com que açoite de palavras não flagelei minha alma, para obrigá-la a me seguir em meus esforços para te alcançar! Ela resistia, recusava-se, sem se desculpar. Todos os argumentos já estavam esgotados e refutados. Nada lhe restava, senão uma angústia muda: tinha medo, como da morte, de ser tolhida à corrente do vício, onde se corrompia mortalmente.
(Por Aurelius Augustinus  *354  +430) Pág.117-118

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A REAÇÃO DE AGOSTINHO ( I ) - LIVRO OITAVO DAS CONFISSÕES

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25/07/2011 (Segunda-feira)


CAPÍTULO VII

Eis o que Ponticiano nos relatou. E tu, Senhor, enquanto ele falava, me fazias refletir, tirando-me da posição de costas, em que me colocara para não me ver a mim mesmo. Tu me colocava diante de meu próprio rosto para que visse como estava indigno, disforme, sórdido, manchado e ulceroso.

Eu me via, e enchia-me de horror, mas não tinha para onde fugir de mim mesmo. Se tentava afastar  o olhar de mim mesmo, Ponticiano prosseguia com a narração, e de novo me punhas diante de mim, e me empurravas diante de meus olhos, para que eu descobrisse minha iniquidade e a odiasse. Eu bem a conhecia, mas a dissimulava, fingia não ver, esquecia.

E quanto mais ardentemente amava aqueles jovens, cuja salutar decisão ouvia relatar, por se terem entregue completamente a ti para que os curasses, tanto mais acerbadamente me odiava ao me comparar a eles. Com efeito, já tinham decorrido muitos anos - talvez uns doze - desde que, aos dezenove anos, lendo o Hortênsio de Cícero, sentia-me atraído para o estudo da sabedoria. Ia adiando a hora de abandonar a felicidade meramente terrena, quando não somente a sua descoberta, mas a sua própria busca, deveria ser preferida aos maiores tesouros e reinos do mundo e aos maiores prazeres corporais, que a um aceno, afluíam a meu redor.
(Por Aurelius Augustinus   *354    +430) Pág. 177

domingo, 24 de julho de 2011

A NARRAÇÃO DE PONTICIANO ( III ) LIVRO OITAVO DAS CONFISSÕES

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24/07/2011 (Domingo)


CAPÍTULO VI

Estes dois eram dos chamados agentes de negócios do imperador. De repente, tomado de amor santo e casto pudor, irado consigo mesmo, olha para o companheiro e lhe diz: "Dize-me, te peço, onde pretendemos chegar com todo estes nossos trabalhos? Que buscamos? Qual a finalidade do nosso labor? Podemos aspirar mais no palácio do que ser amigos do imperador? E mesmo nisto, quanta incerteza, quantos perigos! E quantos perigos teremos de passar para chegar a um perigo ainda maior? E quando chegaremos a isso? Mas, se eu quiser ser amigo de Deus, posso sê-lo agora mesmo" Disse essas palavras, e exaltado pela gestação de nova vida voltou os olhos para o livro; ao ler, transformava-se interiormente, o que só tu sabias, e seu espírito se despia do mundo, como logo se evidenciou.

Enquanto lia, o coração se lhe tornou um mar tempestuoso, sentiu um estremecimento e, intuindo o melhor caminho a tomar, resolveu abraçá-lo, dizendo ao amigo: "Já rompi com nossos sonhos: decidi dedicar-me ao serviço de Deus, e isso quero começar aqui e agora. Se não me queres imitar, ao menos não me contraries".

O amigo respondeu que desejava ficar com ele, e ser companheiro de tão nobre mercê e de tão grande combate. Ambos já te pertenciam, e começavam a construir, com capital suficiente, uma torre de salvação, a tudo renunciando para te seguir.

Então Ponticiano e seu companheiro, que passeavam em outro local do jardim, procurando-os, deram também com a mesma cabana, e os avisaram para que voltassem, pois já entardecia. Mas eles, relataram-lhes sua determinação e propósito, e o modo como nascera e se fixaram neles tal desejo, pediram-lhes que, se não quisessem juntar-se a eles, que não os molestassem. Mas estes, sem se converterem, lamentaram a si mesmos, no dizer de Ponticiano, e felicitando-os piedosamente, recomendaram-se às suas orações; depois, arrastando o coração pela terra, voltaram ao palácio, enquanto que os convertidos, fixando seu coração no céu, ficaram na cabana.

Ambos eram noivos; mas quando suas noivas ouviram o sucedido, também te consagraram sua virgindade.

(Por Aurelius Augustinus  *354   +430) Pág.176-177

sábado, 23 de julho de 2011

A NARRAÇÃO DE PONTICIANO ( II ) LIVRO OITAVO DAS CONFISSÕES

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23/07/2011 (Sábado)


CAPÍTULO VI

Ouvíamos, estupefactos, tuas autênticas maravilhas, realizadas na verdadeira fé, na Igreja Católica, tão recentes e quase contemporâneas*. Todos nos admirávamos: nós, por serem coisas tão grandes; e ele, por ser-nos tão desconhecidas.

Depois, passou a falar das multidões que vivem em mosteiros, e de seus costumes, que trazem teu doce perfume, e da fecunda solidão do ermo, coisas todas que desconhecíamos.

Até em Milão havia, fora dos muros, um mosteiro cheio de bons irmãos sob a direção de Ambrósio, que também desconhecíamos.

Ponciano prosseguia, e falava sempre mais, e nós o ouvíamos atentos e calados. E assim veio a nos contar que um dia, não sei quando, estando em Trevis, saiu em companhia de três companheiros, enquanto o imperador se encontrava nos jogos circenses da tarde, para dar um passeio pelos jardins que rodeavam os muros da cidade. Distraidamente passeando dois a dois, um com Ponticiano e os outros dois juntos, separaram-se  e tomaram caminhos diferentes.

Caminhando a esmo, estes últimos deram com uma cabana, habitada por alguns servos teus, pobres de espíritos, a quem pertence o reino dos céus➀. Lá encontraram um exemplar manuscrito da Vida de Santo Antão☼. Um deles começou a lê-lo, e, admirado e arrebatado cogitou, enquanto lia, em abraçar aquele gênero de vida, abandonando o serviço do mundo, para servir unicamente a ti.
(Por Aurelius Augustinus   *354  +430) Pág. 175-176
* Santo Antão nasceu em 251 e morreu em 356, com cento e cinco anos, dois depois de ter nascido Santo Agostinho. É considerado o fundador da vida monástica no Ocidente e no Oriente.
➀ Mt 5,3.
☼ Vida escrita por Santo Atanásio, e traduzida por Evágrio para o Latim, em 371.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A NARRAÇÃO DE PONTICIANO ( II ) LIVRO OITAVO DAS CONFISSÕES

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22/07/2011 (Sexta-feira)


CAPÍTULO VI

Certo dia em que Nebrídio estava ausente, não sei por que motivo, Alípio e eu recebemos a visita de um tal Ponticiano, nosso compatriota da África, que servia em alto cargo do palácio. Não sei mais o que queria de nós.

Sentamo-nos para conversar, e, por acaso, deu com os olhos em um livro que estava sobre a mesa de jogo, à nossa frente. Pegou-o, abriu-o, viu que eram as epístolas de Paulo, e ficou surpreso, pois pensava que se tratasse de algum dos livros cujo estudo me preocupava. Então sorriu para mim e, cumprimentando-me, manifestou-me sua admiração por ter encontrado aquele livro, e só aquele, ao alcance de meus olhos. Ponticiano era um cristão fiel, e muitas vezes prostrava-se diante de ti, nosso Deus, na igreja, em frequentes e prolongadas orações.

E quando lhe declarei que aquele livro ocupava o melhor de minha atenção, tomando a palavra, começou a falar-nos de Antão, monge do Egito, cujo nome era celebrado entre teus fiéis, mas que nós desconhecíamos até aquela hora. Informado disto, continuou a falar, revelando esse grande homem à nossa ignorância, que ele muito admirou.
(Por Aurelius Augustinus   *354    -430) Pág. 175 

quinta-feira, 21 de julho de 2011

A NARRAÇÃO DE PONTICIANO ( I ) LIVRO OITAVO DAS CONFISSÕES

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21/07/2011 (Quinta-feira)


CAPÍTULO VI

Agora contarei de que modo me arrancaste do vínculo do desejo carnal, que me prendia fortemente, e da servidão dos negócios do mundo, e confessarei teu nome, ó Senhor, meu auxílio e minha redenção¹. Levava minha vida habitual com angústia crescente; todos os dias suspirava por ti, frequentava tua igreja, quando me deixavam livre os negócios, cujo peso me fazia sofrer.

Comigo estava Alípio, desonerado do cargo de jurisconsulto, depois de ter sido assessor pela terceira vez. Ele aguardava a quem vender de novo seus conselhos, como eu vendia arte da eloquência, se é que pelo ensino a podemos transmitir.

Nebrídio, por sua vez, acedendo às nossas solicitações amigas, auxiliava na escola a nosso amigo íntimo, Verecundo; este, gramático e cidadão milanês, desejava enormemente, e nos instava em nome da amizade, que um de nós lhe prestasse uma fiel colaboração, pois dela muito necessitava.

Não foi, pois, o interesse que moveu a Nebrídio - que poderia auferir bem mais vantagens se ensinasse as letras - mas, como grande amigo que era, não quis recusar nosso pedido em obséquio `a amizade. Agia, porém, com muita prudência, evitando fazer-se conhecido dos poderosos deste mundo, para evitar as inquietações do espírito que ele queria manter o mais possível livre e desocupado para investigar, ler ou ouvir algo sobre sabedoria.
(Por Aurelius Augustinus   *354   -430) Pág. 174-175
¹ Sl 18,15

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A CONVERSÃO DOS GRANDES - LIVRO OITAVO DAS CONFISSÕES

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20/07/2011 (Quarta-feira)


CAPÍTULO IV

Vamos, pois, Senhor, mãos à obra! Desperta-nos, chama-nos, inflama-nos, arrebata-nos; derrama tuas doçuras, encanta-nos; amemos, corramos!

Não é verdade que muitos voltam a ti, saindo de um abismo de cegueira mais profundo que o de Vitorino, e se aproximam de ti, e são iluminados pela tua luz, junto da qual recebem o poder de se fazerem teus filhos?

Mas se estes são menos conhecidos pelo mundo dos homens, mesmo os que os conhecem se alegram menos; mas quando a alegria é partilhada por muitos, ainda é maior em cada um, porque se aquece e inflama de uns para os outros.

Ademais, os que são conhecidos de muitos, arrastam à salvação muitos outros, e caminham adiante seguidos dos que os imitam. Por isso, grande é a alegria dos que os precederam, por que não se regozijam só consigo.

Mas, longe de mim pensar que no teu tabernáculo são mais aceitos os ricos que os pobres, e os nobres mais do que os plebeus, porque escolheste os fracos segundo o mundo para confundir os fortes; o que é vil e desprezível segundo o mundo, a que não é nada, para aniquilar o que é¹.

Contudo, o menor de teus apóstolos, por cuja boca pronunciaste essas palavras, quando suas armas abateram o orgulhoso procônsul Paulo, sujeitando-o ao leve jugo de teu Cristo e fizeram dele um súdito do grande Rei, quis, para comemorar tão grande triunfo, mudar seu nome de Saulo pelo de Paulo*.  De fato, o adversário é mais completamente vencido naquilo em que tinha maior domínio, e por meio do que retém maior número de sequases. Ora, o inimigo domina com mais força os soberbos pela nobreza de seu nome e, graças a estes, número maior pelo prestígio de sua autoridade. 

 Assim, na medida em que o coração de Vitorino era tido como fortaleza inexpugnável antes ocupada pelo demônio, e sua língua como dardo poderoso e agudo, que tantas vezes havia dado a morte às almas, tanto mais copiosamente deviam exultar teus filhos, ao verem que nosso Rei agrilhoara o forte², e que seus vasos roubados, eram agora purificados e destinados à tua honra, convertendo-se em instrumentos úteis ao Senhor para toda obra boa³.
(Por Aurelius Agustinus  *354   -430) Pág. 171-172
¹ I Cor 1,27. 
* Santo Agostinho, seguindo São Gerônimo, acredita que o apóstolo mudou o nome em sinal de sua conversão. A opinião mais certa é a de que, sendo o Apóstolo judeu e cidadão romano, tinha dois nomes, um hebreu e outro grego ou latino.
² Mat 12,29.
³ Tim 2,21.

terça-feira, 19 de julho de 2011

A VERDADE DAS ESCRITURAS ( II ) - LIVRO SÉTIMO DAS CONFISSÕES

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19/07/2011 (TERÇA-FEIRA)


CAPÍTULO XXI

Que fará esse homem infeliz? Quem o livrará deste corpo de morte, senão tua graça, por Jesus Cristo, nosso Senhor*, a quem tu geraste coeterno e criaste no princípio de teus caminhos**, ele, em quem o príncipe deste mundo não achou nada que merecesse a morte, e a quem, contudo, matou*>? Com o que foi anulada a sentença que havia contra nós*>*?

Nada disso dizem os livros platônicos. Nem têm naquelas páginas esse sentimento de piedade, as lágrimas da confissão, esse teu sacrifício, a alma abatida, esse coração contrito e humilhado**>, nem a salvação de teu povo, nem a cidade prometida, nem o penhor do Espírito Santo, nem o cálice de nossa redenção**>*.

Nos livros platônicos ninguém canta: "Minha alma não estará sujeita a Deus? Porque dele procede minha salvação, pois é meu Deus, e meu amparo, do qual não mais me apartarei**>**.

Ninguém ali ouve o convite: Vinde a mim os que sofreis. Desdenham teus ensinamentos, porque és manso e humilde de coração. Porque escondeste estas coisas dos sábios e doutos, e as revelaste aos pequeninos**><*.

Uma coisa é ver de um monte agreste a pátria da paz, e não encontrar o caminho que conduz a ela, e fatigar-se debalde por lugares inacessíveis, entre ataques e emboscadas dos desertores fugitivos, com seu chefe, o leão  e o dragão**><**; e outra coisa é conhecer o caminho que conduz até lá, defendido pelos cuidados do imperador celeste, e onde não roubam os desertores da milícia do céu, pois eles o evitam como um suplício.

Esses pensamentos penetravam-me as entranhas de modo maravilhoso, quando eu lia o menor de teus apóstolos**><**>. Considerava tuas obras e enchia-me de assombro.
(Por Aurelius Augustinus    *354   -430) Pág.163-164.
* Rom 7,24.
** Prov 8,22.
*> Jo 14,30.
*>* Col 2,14.
**> Sl 50,19.
**>* Ape 21,2.
**>** Sl2,1.
**><* Mt 11,29-5.
**><** Sl 90,13.
**><**> I Cor 15,9.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A VERDADE DAS ESCRITURAS ( I ) LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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18/07/2011 (Segunda-feira)

CAPÍTULO XXI

Por isso lancei-me avidamente sobre as veneráveis escrituras inspiradas por teu Espírito, sobretudo as do apóstolo Paulo. E desvaneceram em mim aquelas dificuldades nas quais julguei descobrir contradições entre ele e seu texto, em desacordo com os testemunhos da Lei e dos Profetas. Compreendi a unidade daqueles castos escritos, e aprendi a me alegrar com tremor*

Comecei a lê-los e compreendi que tudo de verdadeiro que lera nos tratados dos neoplatônicos se encontrava ali, mas com o aval da tua graça, para que aquele que vê não se glorie como se não houvesse recebido não só o que vê, mas também a faculdade de ver. Com efeito, que tem ele que não tenha recebido?** E tu, que és imutável, não só alerta para que te veja, mas também para que seja curado, para te possuir. Aquele que esta muito longe para te ver, tome, contudo, o caminho para chegar a ti, para te ver e te possuir.

Porque, embora o homem se deleite com a lei de Deus segundo  o homem interior***, que fará dessa outra lei que luta em seus membros contra a lei de seu espírito, e que o prende sob a lei do pecado, impressa em seus membros#? Porque tu és justo, Senhor; nós, porém, pecamos, cometemos iniquidades#*, procedemos como  ímpios, e tua mão se fez pesada sobre nós#**, e é com justiça que fomos entregues ao pecador antigo, ao princípe da morte, porque ele persuadiu nossa vontade a se conformar à sua, que não quis persistir em tua verdade#*#.
(Por Aurelius Augustinus  *354   -430) Pág.163
*SL 2,11.
**I Cor 4,7.
***Rom 7,22.
# Ibid. 24
#* Dan 3,27.
#**SL 31,4.
#*# Jo 8,44.  

domingo, 17 de julho de 2011

A DOUTRINA DO VERBO ( II ) LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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17/07/2011 (Domingo)

CAPÍTULO XIX

Alípio porém pensava que os católicos, crendo em Deus revestido de carne, entendiam que em Cristo, além de Deus e da carne, não havia alma humana; e não julgava que lhe atribuíssem inteligência humana. E como estava bem persuadido de que os atos atribuídos tradicionalmente a Cristo não podiam ser senão obras de uma criatura cheia de vida e de inteligência, Alípio se aproximava com certa relutância da fé cristã. Mas depois, ao saber que este erro era próprio dos hereges apolinaristas, aderiu alegremente à fé católica.

De minha parte, confesso que só aprendi mais tarde a diferença de interpretação das palavras "o Verbo se fez carne", entre a verdade católica e o erro de Fotino*. A reprovação dos hereges põe às claras o pensamento da tua Igreja e o que esta considera como doutrina sã. Convém pois que haja heresias, para que os fortes se distingam entre os fracos.**.
(Por Aurelius Augustinus   *354   -430) Pág. 161.
* Fotino, bispo de Sírmio, afirmava que o Verbo não havia sido o Filho de Deus até encarnar-se nas entranhas da Virgem Maria, negando toda união substancial entre a natureza humana e o Verbo divino..
** I Cor 11,19

sábado, 16 de julho de 2011

A DOUTRINA DO VERBO ( I ) - LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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16/07/2011(Sábado)


CAPÍTULO XIX

Mas eu então julgava de outro modo. Considerava meu Senhor Jesus Cristo apenas um homem de extraordinária sabedoria, a quem ninguém poderia igualar. Sobretudo seu miraculoso nascimento de uma virgem, que nos ensina a desprezar os bens temporais para adquirir a imortalidade. Parecia-me ter merecido, por decreto da providência divina, uma soberana autoridade para ensinar os homens.

Mas nem suspeitava o mistério que se encerra nestas palavras: O Verbo se fez carne. Somente conhecia, pelas coisas que deles nos deixaram escritas, , que comeu, bebeu, dormiu, passeou, que se alegrou, se entristeceu e pregou, e que essa carne não se juntou a teu Verbo senão com alma e inteligência humanas. Tudo isso sabe quem conhece a imutabilidade de teu verbo, que eu já conhecia quanto me era possível, sem que disso nada duvidasse. Com efeito, mover os membros do corpo à vontade, ou não movê-los, estar dormindo por algum afeto ou não o estar, traduzir por palavras sábios pensamentos e depois calar, são caracteres próprios da mutabilidade da alma e da inteligência. Se esses testemunhos das Escrituras fossem falsos, tudo o mais correria o risco de ser mentira, e o gênero humano não teria mais nesses livros a fé, condição de salvação. Mas como são verdadeiras as coisas nelas escritas, eu reconhecia em Cristo um homem completo, não somente o corpo de um homem, ou um corpo sem uma alma inteligente, mas um homem real, que eu julgava superior a todos os outros não por ser a personificação da verdade, mas em razão da singular excelência de sua natureza humana, e de uma mais perfeita participação na sabedoria.
(Por Aurelius Augustinus   *354   -430) Pág. 160-161.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

CAMINHO PARA DEUS - LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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15/07/2011 (Sexta-feira)


CAPÍTULO XII

Admirava-me de já te amar, e não a um fantasma em teu lugar; mas não era estável no gozo do meu Deus. Era arrebatado a ti por tua beleza, e logo afastado de ti pelo meu peso, que me precipitava sobre a terra a gemer. Meu peso eram os hábitos carnais. Mas tua lembrança me acompanhava. Nem absolutamente duvidava da existência de um ser a quem eu devia me unir; embora não estivesse apto para esta união, porque o corpo, que se corrompe, sobrecarrega a alma, e a morada terrena oprime o espírito carregado de cuidados*. Estava certíssimo de que tuas belezas invisíveis se descobrem à inteligência desde a criação do universo por meio de tuas obras, bem como teu poder eterno e tua divindade**.

Buscava saber de onde me vinha minha faculdade de apreciar a beleza dos corpos - quer celestes, quer terrenos - e o que me permitia julgar rápida e cabalmente das coisas mutáveis quando dizia: "Isto deve ser assim, aquilo não deve ser assim". Procurando a origem de minha faculdade de julgar quando assim julgava, achei a eternidade mutável e verdadeira, acima de meu espírito mutável.

E, gradualmente, fui subindo dos corpos para a alma, que sente por meio do corpo; e dela à sua força interior, à qual os sentidos comunicam as coisas exteriores, que é o limite alcançado pelos animais. Daqui passei para o poder do raciocínio, ao qual cabe julgar as percepções dos sentidos corporais; por sua vez, julgando-se sujeito a mudanças, levantou-se até a sua própria inteligência, e afastou o pensamento de suas cogitações habituais. Livrou-se da multidão de fantasmas contraditórios, para descobrir que luz a inundava quando, sem nenhuma dúvida, afirmava que o imutável deve ser preferido ao mutável; e também de onde lhe vinha o conhecimento do próprio imutável, porque, se não tivesse dele alguma noção, nunca o preferiria ao mutável com tanta certeza. E, finalmente, chegou àquele que é num único lampejo.

Foi então que tuas perfeições invisíveis se manifestaram à minha inteligência por meio de tuas obras. Mas não pude fixar nelas meu olhar; minha fraqueza se recobrou, e voltei a meus hábitos, não levando comigo senão uma lembrança amorosa e, por assim dizer, o desejo do perfume do alimento saboroso que eu ainda não podia comer.
(Por Aurelius Augustinus  *354   -430) Pág. 158-159
* Sab 9,15.
** Rom 1,20.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

ONDE ESTÁ O MAL - LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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14/07/2011 (Quinta-feira)


CAPÍTULO XVI

Entendi por experiência que não é de admirar que o pão seja enjoativo ao paladar enfermo, mesmo tão agradável para o paladar sadio, e que olhos enfermos considerem odiosa a luz, que para os límpidos é tão cara. Se tua justiça desagrada aos maus, muito mais desagradam à víbora e o caruncho, que criaste bons e adaptados à parte inferior de tua criação, com a qual também os maus se assemelham, tanto mais quanto mais diferem de ti, assim como os justos se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a ti.

Indaguei o que era a iniquidade, e não achei substância, mas a perversão de uma vontade que se afasta da suprema substância, de ti, meu deus   -  e se inclina para as coisas baixas, e que derrama suas entranhas, e se intumesce exteriormente.
(Por Aurelius Augustinus   *354  -430) Pág. 158

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O MAL E O BEM DA CRIAÇÃO - LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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13/07/2011 (Quarta-feira)


CAPÍTULO XII

Também pude entender que são boas as coisas que se corrompem. Se fossem sumamente boas, não poderiam se corromper, como tampouco o poderiam se não fossem boa de algum modo. Com efeito, se fossem sumamente boas, seriam incorruptíveis; e se não tivessem nenhuma bondade, nada haveria nelas que se pudesse corromper. Porque a corrupção é um mal, e não poderia ser nociva se não diminuísse o bem real. Logo, ou a corrupção é inofensiva, o que é impossível, ou, o que é certo, tudo o que se corrompe é privado de algum bem. E assim, se algo for privado de todo o bem, deixará totalmente de existir. E se algo subsistisse sem já poder ser corrompido, seria ainda melhor, porque permaneceria incorruptível. E haverá maior absurdo do que afirmar que uma coisa se torna melhor pela perda de todo o bem? Logo, ser privado de todo bem é o nada absoluto. De onde se segue que, enquanto as coisas existem, elas são boas. Portanto, tudo o que existe é bom; e o mal, cuja origem eu procurava, não é uma substância, porque se o fosse seria um bem. De fato, ou ele seria substância incorruptível, e portanto um grande bem; ou seria uma substância corruptível, que não poderia corromper se não fosse boa.

Vi pois, e foi fácil para mim evidente, que tu eras o autor de todos os bens, e que não há em absoluto substância alguma que não tenha sido criada por ti. E como não as fizeste todas iguais, todas as coisas existem, porque cada uma por si é boa, e todas juntas muito boas, porque nosso Deus fez todas as coisas muito boas.*
(Por Aurelius Augustinus   *354   -430) Pág. 155-156
* Gên 1,31.

terça-feira, 12 de julho de 2011

A DESCOBERTA DE DEUS - LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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12/07/2011 (Terça-feira)


CAPÍTULO X

Estimulado por essas leituras a voltar a mim mesmo, entrei, guiado por ti, no profundo do meu coração, e o pude fazer porque te fizeste minha ajuda. Entrei, e vi com os olhos da alma, acima desses mesmos olhos, acima de minha inteligência, a luz imutável; não esta vulgar e visível a todos os olhos de carne, nem outra do mesmo gênero, embora maior. Era muito mais clara e enchendo com sua força todo o espaço. Não, não era esta luz, mas uma luz diferente de todas estas.

Ela não estava sobre meu espírito como azeite sobre a água, como o céu sobre a terra, mas estava acima de mim porque me criou; eu lhe era inferior por ter sido criado por ela. Quem conhece a verdade conhece esta luz, e quem a conhece, conhece a eternidade. O amor a conhece!

Ó eterna verdade, amor verdadeiro, amada eternidade! Tu és meu Deus. Por ti suspiro dia e noite. Quando te conheci pela primeira vez, ergueste-me para me fazer ver que havia algo para ser visto, mas que eu ainda era incapaz de ver. E deslumbraste a fraqueza de minha vista com o fulgor de teu brilho, e eu estremeci de amor e temor. Pareceu-me estar longe de ti numa região desconhecida, como se ouvira tua voz do alto: "Sou o pão dos fortes: cresce, e comer-me ás. Não me transformarás em ti, como fazes com o alimento de tua carne, mas tu serás mudado em mim"*.

E conheci então que "castigaste o homem por causa de sua iniquidade", e "que secaste minha alma como uma teia de aranha"; e eu disse: Porventura não existe a verdade, por não ser difusa pelos espaços finitos e infinitos? E tu me gritaste de longe: Na verdade, Eu sou o que sou. E eu ouvi como se ouve no coração, sem deixar motivo para dúvidas; antes, mais facilmente duvidaria de minha vida que da existência da verdade, que se manifesta à inteligência pelas coisas da criação*.
(Por Aurelius Agustinus  *354   -430) Pág. 154
* Sl 38,12.
** Rom 1,20.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

AINDA A ORIGEM DO MAL ( II ) LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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11/07/2011 (Segunda-feira


CAPÍTULO VII

Tu só sabes o que eu padecia, mas homem algum o sabia. De fato, quão pouco era o que minha palavra transmitia aos meus amigos mais íntimos! Chegava, porventura, a eles o tumulto de minha alma, que nem o tempo, nem as palavras bastavam para declarar? Contudo, chegavam aos teus ouvidos as queixas que em meu coração rugiam, e meu desejo estava diante de ti, mas a luz de meus olhos não estava contigo*, porque ela estava dentro, e eu olhava para fora. Ela não ocupava espaço algum, e eu só pensava nas coisas que ocupavam lugar, e não achava nelas lugar de descanso, nem me acolhiam de modo que pudesse dizer: "Basta! Aqui estou bem!" -  Nem permitiam que eu fosse para onde sentisse satisfeito. Eu era superior a estas coisas, mas sempre inferior a ti. Seria minha verdadeira alegria se eu te fosse submisso, pois sujeitaste a mim tudo o que criaste inferior a mim. Tal seria o justo equilíbrio e a região central de minha salvação: permanecer como imagem tua, e servindo-te, ser o senhor de meu corpo. Mas, como me levantei soberbamente contra ti, investindo contra meu Senhor coberto com o escudo de minha dura cerviz**, até mesmo as criaturas inferiores se fizeram superiores a mim, e me oprimiam, e não me davam um momento de alívio e de descanso. 

Quando as olhava, elas me vinham ao encontro atabalhoadamente de todos os lados; mas quando nelas me concentrava, tais imagens corporais me barravam para que me retirasse, como se me dissessem: "Para onde vais, indigno e impuro?" E estas recobravam forças com a minha chaga, porque humilhaste o soberbo como a um  homem ferido***. Minha presunção me separava de ti, e meu rosto, de tão inchado, fechava meus olhos.
(Por Aurelius Augustinus   *354   -430) Pág. 150-151
* Sl 37,9.
** Jó 5,26.
***Sl 88,11.

domingo, 10 de julho de 2011

AINDA A ORIGEM DO MAL ( I ) LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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10/06/2011 (Domingo)


CAPÍTULO VII

Deste modo, ó meu auxílio, já me havias libertado daqueles grilhões. Contudo eu buscava ainda a origem do mal, e não encontrava solução. Mas não permitias que as vagas de meu pensamento me apartassem da fé. Fé na tua existência, na tua substância imutável, na tua providência para os homens, e na tua justiça que os julgará. Já acreditava que traçaste o caminho da salvação dos homens, rumo à vida que sobrevém depois da morte, em Cristo, teu filho e Senhor nosso, e nas sagradas Escrituras, recomendadas pela autoridade de tua Igreja Católica.

Salvas e fortemente arraigadas estas verdades em meu espírito, buscava eu ansiosamente a origem do mal. E que tormentos, como que de parto, eram aqueles de meu coração! Que gemidos, meu Deus! E ali estavam teus ouvidos atentos, e eu não o sabia. Quando, em silêncio, me esforçava em pacientes buscas, altos clamores se elevavam até tua misericórdia: eram as silenciosas angústias de minha alma.
(Por Aurelius Augustinus   *354   -430) Pág. 149-150

A ORIGEM DO MAL ( II ) LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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10/07/2011 (Domingo)
CAPÍTULO V

E por que isto? Acaso, sendo onipotente, não podia mudá-la, transformá-la toda, para que não restasse nela semente de mal? Enfim, por que se utilizou dessa matéria para criar? Por que sua onipotência não a aniquilou totalmente? Poderia ela existir por tanto tempo contra sua vontade? E, se é eterna, porque deixou-a existir por tanto tempo no infinito do passado, resolvendo tão tarde servir-se dela para fazer alguma coisa? Ou, já que quis fazer de súbito alguma coisa, sendo onipotente, não poderia suprimir a matéria, ficando ele só, bem total verdadeiro, sumo e infinito? E, se não era conveniente que, sendo bom, não criasse nem produzisse bem algum, por que não destruiu e aniquilou essa matéria má, criando outra que fosse boa, e com a qual plasmar toda a criação? Porque ele não seria onipotente se não pudesse criar algum bem sem a ajuda dessa matéria que não havia criado.

Tais eram o pensamentos de meu pobre coração, oprimido pelos pungentes temores da morte, e sem ter encontrado a verdade. Contudo, arraigava sempre mais em meu coração a fé de teu Cristo, nosso Senhor e Salvador, professada pela Igreja Católica; fé ainda incerta, certamente, em muitos pontos, e como que flutuando fora das normas da doutrina. Minha alma porém não a abandonava, e cada dia mais se abraçava a ela.
(Por Aurelius Augustinus   *  354   -430) Pág. 146-147

sábado, 9 de julho de 2011

A ORIGEM DO MAL ( I ) LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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09/07/2011 (Sábado)


CAPÍTULO V

Eu buscava a origem do mal, mas de modo errôneo, e não via o erro que havia em meu modo de buscá-la. Desfilava diante dos olhos de minha alma toda a criação, tanto o que podemos ver - como a terra, o mar, as estrelas, as árvores e os animais - como o que não podemos ver - como o firmamento, e todos os anjos e seres espirituais. Estes porém, como se também fossem corpóreos, colocados pela minha imaginação em seus respectivos lugares. Fiz de tua criação uma espécie de massa imensa, diferenciada em diversos gêneros de corpos: uns, corpos verdadeiros, e espíritos, que eu imaginava como corpos.

E eu a imaginava não tão imensa quanto ela era realmente - o que seria impossível - mas quanto me agradava, embora limitada por todos os lados. E a ti, Senhor, como a um ser que a rodeava e penetrava por todas as partes, infinito em todas as direções, como se fosses um mar incomensurável, que tivesse dentro de si uma esponja tão grande quanto possível, limitada, e toda embebida, em todas as suas partes, desse imenso mar.

Assim é que eu concebia a tua criação finita, cheia de ti, infinito, e dizia: "Eis aqui Deus, e eis aqui as coisas que Deus criou; Deus é bom, imenso e infinitamente mais excelente que suas criaturas; e, como é bom, fez boa todas as coisas; e vede como as abraça e penetra! Onde está pois o mal? De onde e por onde conseguiu penetrar no mundo/ Qual é sua raiz e sua semente? Será que não existe? E porque recear e evitarmos o que não existe? E se tememos em vão, o próprio temor já é certamente um mal que atormenta e espicaça sem motivo nosso coração; e tanto mais grave quanto é certo que não há razão para temer. Portanto, ou o mal que tememos existe, ou o próprio temor é o mal. De onde, pois, procede o mal se Deus, que é bom, fez boas todas as coisas? Bem superior a todos os bens, o Bem supremo, criou sem dúvida bens menores do que ele. De onde pois vem o mal? Acaso a matéria de que se serviu para a criação era corrompida e, ao dar-lhe forma e organização, deixou nela algo que não converteu em bem?
(Por Aurelius Augustinus   *354   -430) Pág. 145-146

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A SUBSTÂNCIA DE DEUS - LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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08/07/2011 (Sexta-feira)


CAPÍTULO IV

Empenhava-me então por descobrir as outras verdades, como havia descoberto que o incorruptível é melhor que o corruptível, e por isso confessava que tu, qualquer que fosse tua natureza, devias ser incorruptível. Porque ninguém pode nem poderá jamais conceber algo melhor do que tu, que és o sumo bem por excelência. Por isso, sendo certíssimo e inegável que o incorruptível é superior ao corruptível, o que eu já fazia, meu pensamento já poderia conceber algo melhor do que o meu Deus, se não fosses incorruptível.

Portanto, logo que vi que o incorruptível deve ser preferido ao corruptível, imediatamente deveria buscar-te no incorruptível, para depois indagar a causa do mal, isto é, a origem da corrupção, que de nenhum modo pode afetar tua substância. É certo que, nem por vontade, nem por necessidade, nem por qualquer acontecimento imprevisto, pode a corrupção afetar a nosso Deus, porque ele é Deus, e não pode querer senão o que é bom, e ele próprio é o sumo bem; e estar sujeito à corrupção não é nenhum bem.

Tampouco podes ser obrigado, contra a tua vontade, seja ao que for, porque tua vontade não é maior do que teu poder. Seria maior caso pudesse ser maior do que és, pois a vontade e o poder de Deus são o mesmo Deus. E que pode haver de imprevisto para ti, se conheces todas as coisas, e se todas elas existem porque as conheces?

Mas, por que tantas palavras para demonstrar que a substância de Deus não é corruptível, já  que se o fosse não seria Deus?
(Por Aurelius Augustinus   *354    -430) Pág. 145  

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A IDEIA DE DEUS ( II ) - LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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07/07/2011 (Quinta-feira)


CAPÍTULO I

Assim, pois com o coração pesado, sem consciência clara de mim mesmo, considerava como um perfeito nada tudo o que não tivesse extensão por determinado espaço, ou não se difundisse, ou não se juntasse, ou não se dilatasse, ou não assumisse ou pudesse assumir um desses estados. As formas percorridas por meus olhos eram os moldes das imagens pelas quais andava meu espírito; não via que a mesma faculdade com que formava essas imagens não era da mesma natureza que elas, não obstante não pudesse formá-las se ela não fosse por sua vez algo grande.

E também a ti, vida de minha vida, imaginava-te como um Ser imenso, penetrando por todas as partes, através dos espaços infinitos, toda a massa do mundo, alastrando-se sem limites na imensidão, de sorte que a terra, o céu e todas as coisas te continham, e tudo isso tinha em ti seu limite, sem que te limitasses em parte alguma. E assim como a massa do ar - deste ar que está sobre a terra - não impede a passagem da luz do sol, não o impede de atravessar, de a penetrar sem romper ou cortar, antes enchendo-a totalmente, assim eu pensava que não somente a substância do céu, do ar e do mar, mas também a da terra se deixava atravessar e penetrar por ti em todas s suas partes, grandes e pequenas, que receberiam tua presença, que, com secreta inspiração, governa interior e exteriormente tudo o que criaste.

Assim conjeturava eu, por não poder imaginar-te de outra forma; mas minha conjectura era falsa. Porque, se assim fosse, uma porção maior da terra conteria parte maior de ti; e uma porção menor da terra conteria parte menor. E de tal modo estariam as coisas impregnadas de ti, que o corpo de um elefante conteria tanto mais de teu ser que o corpo do passarinho, pois aquele é maior do que este, e ocupa mais espaço. Assim, fragmentado entre as partes do universo, estarias presente nas grandes partes do universo por grandes partes de ti, e nas pequenas por pequenas, o que não acontece. Mas ainda não tinhas iluminado minhas trevas*.
(Por Aurelius Augustinus   *354   -430) Pág. 142
* Sl 17,29.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A IDEIA DE DEUS ( I ) - LIVRO SÉTIMO DE CONFISSÕES

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06/07/2011 (Quarta-feira)


CAPÍTULO I

Já havia morrido minha adolescência má e nefanda; entrava na juventude, e quanto mais crescia em idade, mais vergonhosa se tornava minha vaidade, a ponto de não poder imaginar uma substância além da que se pode perceber com os olhos.

Desde que comecei receber as lições da sabedoria, não mais te imaginava, meu Deus, sob a forma de um corpo humano - sempre fugi dessa ideia, e me alegrava encontrar essa doutrina na fé de nossa mãe espiritual, a Igreja Católica; - mas não me ocorria outro modo de te imaginar. E sendo eu homem, - e que homem - , esforçava-me para imaginar a ti, o sumo, o único e verdadeiro Deus. Com toda minha alma eu te julgava incorruptível, inviolável e imutável. Mesmo não sabendo de onde nem como me vinha esta certeza, eu via com clareza e tinha como certo que o incorruptível é melhor do que o corruptível. Sem hesitar, colocava o que não pode ser vencido acima do que o pode ser, e o que não sofre mudança parecia-me melhor do que é suceptível a mudanças.

Meu coração clamava violentamente contra todos os meus fantasmas. Esforça-me por afugentar, com um só golpe, o redemoinho de imagens imundas que voluteavam a meu redor. Mas, apenas disperso, em um piscar de olhos, tornava a se formar aos atropelos sobre minha vista, obscurecendo-a. Apesar de não te atribuir uma figura humana, contudo, necessitava te conceber como algo corporal, situado no espaço, quer imanente ao mundo, quer difundido por fora do mundo através do infinito; tal era o ser incorruptível, inviolável e imutável que eu colocava acima do que é corruptível, sujeito à deterioração e às mudanças. O que não ocupava espaço me parecia um nada absoluto, perfeito, e não um simples vazio, como quando se tira um corpo de um lugar, permanecendo o lugar vazio de todo o corpo, terrestre, úmido, aéreo ou celeste,* mas, enfim, um lugar vazio, como que um nada espaçoso.
(Por Aurelius Augustinus   *354   -430) Pág.141-142
* Refere-se aqui aos quatro elementos da natureza, dos quais  os amigos supunham constituir tudo o que existe - terra, fogo, ar e água no lugar dos elementos da química atual. 

terça-feira, 5 de julho de 2011

A APROXIMAÇÃO DE DEUS - LIVRO SEXTO DE CONFISSÕES

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05/06/2011 (Terça-feira)


CAPÍTULO XVI

Louvor e glória a ti, ó fonte das misericórdias! Eu me tornava cada vez mais miserável, e tu te aproximava cada vez mais de mim. Já estava junto de mim tua destra, para me arrancar do lodo dos meus vícios, e me purificar, e eu não o sabia. Mas nada havia que me fizesse sair do profundo abismo dos prazeres carnais, a não ser o medo da morte e de teu juízo futuro, que jamais saiu do meu peito, através das várias doutrinas que segui.

Discutia com meus amigos Alípio e Nebrídio sobre o bem e o mal finais; facilmente meu juízo teria dado a palma a Epicuro, se eu não acreditasse na imortalidade da alma e do julgamento dos nossos atos, coisas em que Epicuro nunca acreditou. E eu perguntava: "Se fôssemos mortais, e vivêssemos em perpétuo gozo sensorial, sem temor algum de perdê-lo, não seríamos felizes? Que mais poderíamos desejar?" Ignorava eu que isto era fruto duma grande miséria. Não podia, tão imerso no vício e cego como estava, imaginar a luz da virtude e uma beleza invisível aos olhos da carne, e somente visível das profundezas da alma. Na minha miséria, não indagava de que fonte provinha esse grande gosto em conversar com os amigos, mesmo sobre esses assuntos vergonhosos ; e porque não poderia ser feliz sem meus amigos desinteressadamente, e também sentia que eles me amavam com o mesmo desinteresse.

Ó caminhos tortuosos! Ai da alma temerária que, afastando-se de ti, esperava achar algo melhor! Dá voltas e mais voltas, para todos os lados, mas tudo lhe é duro, porque só tu és seu descanso. Mas eis que estás presente, e nos livras de nossos miseráveis erros, e nos pões em teu caminho, e nos consolas dizendo: "Correi, que eu vos levarei e conduzirei ao termo, e aí serei vosso sustento!*
(Por Aurelius Augustinus   *354   -430) Pág. 138-139
* Is. 44,4.

EU VIM AQUI PARA TE DIZER QUE

TE AMO, IRMÃO; TE AMO IRMÀ
.


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